CRÍTICA: “Enzo” aposta no conflito de classe e identidade, mas deixa dúvidas sobre o olhar do protagonista

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O drama Enzo, dirigido por Robin Campillo, chega aos cinemas brasileiros em 19 de março com a proposta de acompanhar o processo de descoberta de um adolescente que decide desafiar o destino planejado pela família. No entanto, apesar de reunir bons elementos visuais e um tema potente, o filme provoca um sentimento ambíguo ao tratar da rebeldia de um jovem privilegiado.

Ambientada no sul da França, a trama acompanha Enzo, um garoto de 16 anos que decide trabalhar como aprendiz de pedreiro, contrariando as expectativas de sua família burguesa. A convivência no canteiro de obras, especialmente com Vlad, um colega ucraniano carismático, passa a questionar sua visão de mundo e abre caminho para novas experiências pessoais.

O longa também carrega um peso simbólico fora da tela. O roteiro foi escrito por Campillo ao lado de Laurent Cantet e Gilles Marchand. Cantet morreu em 2024, antes do início das filmagens, e o filme acabou sendo finalizado como uma homenagem do colaborador de longa data.

Fotografia e contraste social sustentam o filme

Um dos pontos mais fortes de Enzo está na construção visual. A fotografia destaca o contraste entre a luxuosa casa da família e o ambiente cru do canteiro de obras. Esse cenário reforça a desconstrução emocional do protagonista durante sua fase de descobertas.

O filme também apresenta bons momentos no elenco, liderado pelo estreante Eloy Pohu, além de nomes conhecidos como Pierfrancesco Favino e Élodie Bouchez.

No entanto, a própria base do conflito narrativo pode afastar parte do público. Como a história acompanha um jovem de origem burguesa em uma família aparentemente funcional, o sentimento de revolta do protagonista nem sempre encontra eco em espectadores que vivem realidades sociais mais duras.

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Entre denúncia social e crise adolescente

Em alguns momentos, fica difícil identificar qual é exatamente o foco do filme. A narrativa busca testemunhar o sofrimento de um jovem incompreendido ou denunciar a possibilidade de que alguém privilegiado experimente a vida proletária quase como uma escolha temporária?

Há um ponto de identificação universal na trama, especialmente no processo de descoberta da sexualidade e da identidade na adolescência. Esse aspecto ultrapassa barreiras sociais e cria momentos de conexão com o público.

Ainda assim, o desfecho reforça a ambiguidade da história. Enquanto Enzo retorna às férias familiares nas famosas ruínas italianas, sua paixão carrega marcas de um contexto muito mais duro, marcado por guerra e ausência de escolha.

Ao final, a sensação é de que Robin Campillo constrói esse contraste de forma deliberada. O problema é que a dualidade permanece até o último minuto e deixa a impressão de que o filme nunca decide completamente qual história deseja contar.

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