O mercado gamer brasileiro já não cabe mais na definição de nicho e os números deixam isso evidente. Hoje, mais de 75% dos brasileiros jogam algum tipo de jogo digital, enquanto mais de 80% consideram os games uma de suas principais formas de entretenimento, segundo a Pesquisa Game Brasil 2026. O que antes era visto como um hábito específico se consolidou como parte da cultura cotidiana.
Essa transformação não acontece só no consumo, mas também na forma como a indústria se posiciona. Durante a gamescom latam 2026, em São Paulo, ficou claro que a disputa entre marcas deixou de ser exclusivamente técnica. Performance ainda importa, mas já não é suficiente.
Em conversa com Daniel Santarem, gerente comercial e de marketing da ADATA no Brasil, o especialista revelou ao Benverse que essa mudança aparece de forma direta, tanto na leitura de mercado quanto no desenvolvimento de produtos. Hoje o setor gamer não é visto apenas como nicho, mas como uma cultura dominante.
O gamer brasileiro não é mais um só
Parte dessa mudança vem da expansão do acesso. O avanço do mobile colocou o Brasil em um novo patamar, com o smartphone se consolidando como principal porta de entrada para os jogos, responsável por mais da metade da receita do setor no país. Mas o impacto vai além do volume e muda o comportamento.
“Parte do público gamer também joga no mobile, e isso trouxe muito mais gente. O público feminino também cresceu bastante e hoje você tem um jogador que não está mais preso a uma plataforma”, diz Santarem.
O resultado é um usuário multiplataforma, que alterna entre celular, console e PC com naturalidade. Ao mesmo tempo, a base de jogadores não se renova, pelo contrário, se acumula. Hoje, a maior parte desse público é formada por adultos, segundo a Pesquisa Game Brasil 2026, o que revela uma mudança importante, uma vez que o gamer não envelhece fora do mercado, mas continua dentro dele.
“Hoje é tudo: console, PC e mobile e não tem mais limite de idade. Quem começou lá atrás continua jogando, migra de plataforma e volta. É um público muito mais diverso do que era antes”, complementa o executivo.
Quando o produto precisa acompanhar o comportamento
Esse novo perfil de consumidor pressiona a indústria a sair de uma lógica puramente técnica. Componentes de alto desempenho continuam sendo relevantes, mas já não sustentam, sozinhos, a diferenciação entre marcas.
O movimento observado hoje é de expansão para categorias que dialogam com experiência, conforto e identidade, como cadeiras, monitores e acessórios. Durante a gamescom latam 2026, a XPG, divisão de alta performance da ADATA, apresentou sua tecnologia de cadeiras confortáveis, solidificando ainda mais a presença no setor com o selo de lifestyle.
“A gente é muito reconhecido por memória e SSD, mas está olhando essa movimentação do mercado”, comenta Santarem. Segundo ele, vai além do hardware e o desenvolvimento de produto acompanha isso. A expansão de produtos e serviços deve acompanhar comportamento e estilo de vida cada vez mais.
O gamer consome identidade
A transformação do mercado também passa por uma camada simbólica. O consumo gamer deixou de ser apenas funcional e passou a ser, também, uma forma de expressão.
Isso explica o avanço de produtos temáticos, colaborações com franquias e até a criação de universos próprios pelas marcas, muitas vezes inspirados na cultura geek e no anime.
“A cultura gamer está muito próxima da cultura geek. A gente tem personagens, narrativas próprias e também trabalha com produtos temáticos”, explica Santarem, deixando claro que hoje não é só sobre jogar, é sobre se identificar.
Nesse cenário, o setup, os acessórios e até itens de vestuário passam a comunicar pertencimento. O jogador não quer apenas desempenho, mas também reconhecimento.

O Brasil segue a mesma lógica
Apesar das diferenças de mercado, o comportamento do gamer brasileiro não destoa de outras regiões. O engajamento, a paixão e a relação com os jogos seguem padrões globais, inclusive na forma como os eSports se aproximam da lógica esportiva tradicional. “A diferença do gamer brasileiro para o da Europa ou da Ásia é basicamente o idioma. A paixão é a mesma, é quase como futebol”, pontua o gerente comercial.
Onde o país ainda enfrenta desafios é na operação. Questões logísticas fazem com que lançamentos demorem mais para chegar ao mercado nacional, especialmente quando dependem de transporte marítimo. “Um produto lançado na Ásia pode levar de dois a três meses para chegar aqui. É uma questão logística”, explica.
Em termos de impacto, Daniel Santarem comenta que essa “demora” de chegar ao Brasil pós lançamento internacional pode incomodar consumidores pela impaciência. No entanto, estão entendendo cada vez mais essas questões técnicas.
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O novo diferencial não está no produto, mas na escuta
Com um público mais maduro, diverso e exigente, o erro das marcas não está em não inovar, mas em não ouvir. A proximidade com o consumidor se torna parte central da estratégia, não apenas no marketing, mas no desenvolvimento de produto.
“Estar em eventos como a gamescom latam 2026 é fundamental pra entender a dor de quem joga e transformar isso em solução. Muita coisa que a gente desenvolve vem desse contato direto.”
O exemplo das cadeiras gamer ilustra esse movimento. Modelos anteriores priorizavam estética, mas ignoravam conforto. A correção veio a partir de feedbacks reais, incorporando melhorias ergonômicas que ampliam o tempo de uso e a experiência do jogador.
O que essa transformação revela é que o mercado gamer deixou de ser apenas uma indústria de entretenimento para se tornar um espaço onde tecnologia, comportamento e cultura se cruzam de forma cada vez mais evidente.
Considerando um mercado que já movimenta bilhões e segue em expansão, a disputa entre marcas passa menos por especificação técnica e mais por relevância cultural. Nesse cenário, entender o consumidor não é mais diferencial competitivo, pois já entrou para o selo de sobrevivência.

Roberto é jornalista e redator especializado em entretenimento e cultura pop. Com quase uma década de experiência na produção de conteúdo para portal de notícias, foca em unir SEO e jornalismo de qualidade para trazer os melhores ângulos factuais sobre música, cinema, séries, games, comportamento e cultura.
